A condenação do ex-governador a 25 anos abre uma cratera no tabuleiro político do Acre. A pergunta agora é: quem vai ocupar o espaço? E quem tem mais a perder com a resposta?
Aconteceu.
Na última quarta-feira, 6 de maio de 2026, a Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça condenou o ex-governador GladsonCameli a 25 anos e 9 meses de reclusão por organização criminosa, corrupção ativa e passiva, peculato, lavagem de dinheiro e fraude à licitação. A decisão foi unânime. O regime inicial é fechado. A defesa já anunciou que vai recorrer ao STF.
Tecnicamente, Gladson ainda pode ser candidato — a inelegibilidade existe e só o STF pode mudar algo. E politicamente, o cenário mudou de forma irreversível. Uma condenação de 25 anos não é uma nuvem passageira. É um terremoto. E as réplicas já estão sendo sentidas em cada canto da política acreana.
A vaga de Gladson ao Senado, que nas pesquisas parecia garantida, agora é terra de ninguém.
E é exatamente aí que o jogo pode ficar perigoso — especialmente para o senador Márcio Bittar.
O efeito dominó: quem se mexe primeiro
Bastaram poucas horas após a condenação para os movimentos começarem.
No MDB, a articulação para lançar Jéssica Sales ao Senado ganhou corpo e velocidade. Jéssica, que tem votação expressiva no Juruá e uma base consolidada no interior, enxerga na queda de Gladson a oportunidade que esperava. Seu nome já vinha sendo ventilado nos bastidores, mas a presença de Gladson na disputa inviabilizava qualquer movimentação. Agora, o caminho pode estar aberto.
No União Brasil, o deputado federal Coronel Ulysses também se posiciona. Nos bastidores afirma ter alinhamento junto à direção nacional do partido e trânsito no campo bolsonarista, Ulysses vê na vaga deixada por Gladson a chance de migrar da Câmara Federal para o Senado. Sua candidatura já era monitorada desde as anotações de Flávio Bolsonaro que vazaram em fevereiro — e agora ganha concretude.
Dois nomes. Dois partidos. Dois caminhos completamente diferentes para Márcio Bittar.
E é aqui que a análise fica cruel.
Coronel Ulysses: pode ser o pesadelo de Bittar
Se o Coronel Ulysses confirmar sua candidatura ao Senado, Márcio Bittar tem um problema gravíssimo.
O motivo é simples: os dois pescam no mesmo rio.
Bittar é PL. Bolsonarista. Ultra direita. Seu eleitorado é o mesmo que vota em Ulysses — conservador, ligado ao campo bolsonarista, identificado com a pauta da direita dura.
Mas não para por aí. A pré-candidata ao Senado Mara Rocha, do Republicanos, também ocupa esse mesmo espaço ideológico. Mara tem base própria, votação consolidada e um discurso que dialoga diretamente com o eleitor conservador.
Faça a conta: Bittar, Ulysses e Mara Rocha — três candidatos da ultra direita disputando a mesma fatia do eleitorado. Três nomes brigando pelo mesmo voto. Três chapéus para uma só cabeça.
Na aritmética eleitoral, isso tem um nome: canibalismo.
Enquanto a esquerda e o centro concentram seus votos em praticamente um nome, a direita acreana se fragmenta em três candidaturas que se anulam mutuamente. E quem mais perde com essa divisão é justamente quem tem mais a defender: o senador em busca de reeleição.
Bittar já deve saber disso, tem mais rejeição que os outros e tem grande chance de ficar pelo meio do caminho. E com isso a federação União Brasil, que faria 4 deputados — ou seja, metade da bancada — certamente perderá uma cadeira.
Jéssica Sales: o cálculo que não incomoda Bittar
Se Ulysses é o pesadelo, Jéssica Sales é o cenário tolerável para Bittar.
E a razão é objetiva: Jéssica não disputa o mesmo eleitorado que ele. Sua base está no Juruá, no interior, no eleitor do MDB que transita entre o centro e a centro-esquerda. É um público que não vota em Bittar de qualquer forma.
Mais do que isso: se Jéssica e Bittar estiverem na mesma coligação, a candidatura dela pode até ajudá-lo. Uma chapa coligada forte puxa votos para baixo e para cima, e Jéssica tem capilaridade em regiões onde Bittar não chega com a mesma força.
Agora, Jéssica e Velloso disputam um eleitorado mais ao centro — o voto do interior, o eleitor que valoriza presença, trabalho social e proximidade. Eles teriam muitos votos casados.
Ou seja: a entrada de Jéssica se alinha ao campo que ameaça Bittar por fora, enquanto a entrada de Ulysses divide o campo que sustenta Bittar por dentro.
Para o senador, a equação deve ser: Jéssica não muda muito. Ulysses, jamais.
O que ninguém quer admitir
Na realidade, o cenário ideal para todos — com exceção de Jorge Viana — os atuais pré-candidatos ao Senado seria que nenhum novo nome surgisse. Cada candidatura adicional é um fator de imprevisibilidade. Cada novo nome fragmenta votos, muda a dinâmica das coligações e redesenha os cenários de pesquisa, é só lembrar do PT em 2018, Minoro, Ney Amorim e Jorge Viana.
Mas a política não funciona no cenário ideal. Funciona no cenário real. E o cenário real, depois da condenação de Gladson, é de terra arrasada e reposicionamento.
A vaga que era de Gladson virou um imã. E todo imã atrai — mas também pode repelir.
O mapa do Senado depois de Gladson
Se Ulysses entrar, o Senado acreano fica assim:
No campo da direita bolsonarista: Bittar, Ulysses e Mara Rocha — três candidatos, um eleitorado. Fragmentação letal.
No campo do centro e centro-direita: Eduardo Velloso — sozinho, remando contra a maré, mas sem concorrente direto no seu espectro. Se Jéssica entrar, a disputa nesse campo passa a ter mais um.
No campo da esquerda: Jorge Viana — consolidado como o nome do PT, com rejeição alta mas base fiel. Já Petecão, um pouco menos de rejeição.
A matemática não mente. Se a direita colocar três nomes na pista, ela entrega de bandeja a segunda vaga ao campo adversário.
Bittar, que passou os últimos meses articulando, manobrando aliados e calculando cada lance, pode ver toda a sua engenharia desmoronar por um único fator que ele não controla: a ambição de quem está ao seu lado.
Mas quem mais perde mesmo é Mailza
Existe, porém, uma peça neste tabuleiro que ninguém está olhando com a atenção devida: a governadora Mailza Assis.
Porque se a condenação de Gladson é ruim para Bittar, para Mailza pode ser fatal.
Pense com calma. Hoje, ao lado de Mailza — ou pelo menos gravitando na órbita dela — estão nomes como Petecão e Eduardo Velloso, pré-candidatos ao Senado que poderiam somar força à sua candidatura ao governo. São palanques possíveis. São votos que puxam para cima. São chapas que fortalecem a coligação.
Agora, se Jéssica Sales sair candidata ao Senado pelo MDB, ouse, Coronel Ulysses for ao Senado pelo União Brasil, ele não enfraquece só Bittar — ele empurra consigo uma estrutura partidária que poderia estar somando com Mailza, para um dos seus adversários.
Em resumo: cada novo candidato ao Senado que possa surgir no núcleo do governo neste vácuo deixado por Gladson, é umaliado a menos no palanque da governadora.
E Mailza não está em posição de perder aliados. Seu governo, com menos de dois meses, já patina. A insatisfação interna cresce. Os aliados da gestão Gladson se afastam. A articulação política é frágil. As chapas de deputados federais que deveriam ter sido montadas não foram.
A governadora precisava construir uma frente ampla para disputar a reeleição com a vantagem que o cargo oferece. Em vez disso, está assistindo sua base se esfarelar — e pode piorar a cada candidatura nova ao Senado.
Se Mailza não abrir os olhos agora, pode acordar em agosto com um cenário irreversível: sem Gladson para puxar votos, sem Petecão ao lado, sem Velloso na composição, sem a maioria dos aliados que eram dela.
Governadora em exercício que perde a reeleição é exceção estatística — menos de 10% fracassam. Mas do jeito que as coisas estão caminhando, Mailza pode estar cavando sua vaga nessa minoria com as próprias mãos. Ou pior: deixando que cavem por ela.
A ironia final
Gladson Cameli foi condenado a 25 anos por comandar, segundo a Justiça, uma organização criminosa. A defesa vai recorrer ao STF. O processo seguirá seu curso.
Mas o efeito político é imediato e devastador.
A candidatura de Gladson era a âncora que mantinha o tabuleiro estável. Com ela fora d’água — ou à beira de afundar — o navio da direita acreana começa a balançar.
E a ironia é essa: Márcio Bittar, que passou meses tentando controlar o jogo, pode ser derrotado não pela oposição, não pela esquerda, mas pela própria turma.
E Mailza, que herdou a máquina mais poderosa da política acreana, pode ser a governadora que perdeu tudo sem que ninguém precisasse tirar dela — bastou deixar que os aliados se dispersassem.
Porque na política acreana, como já se provou tantas vezes, o maior adversário nem sempre é quem está do outro lado.
Às vezes, é quem está sentado ao lado.
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